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O grau de fibrose determina a possibilidade de cura na hepatite C

19/07/2010

Um estudo realizado por pesquisadores na Austrália objetivava saber se uma dosagem maior de interferon peguilado durante as primeiras semanas do tratamento poderia resultar em maior resposta terapêutica no tratamento da hepatite C.

No estudo foram incluídos 896 pacientes infectados com o genótipo 1 da hepatite C nunca antes tratados com qualquer tipo de medicamento antiviral os quais aleatoriamente foram divididos em dois grupos. Um dos grupos, com 448 pacientes, recebeu o tratamento tradicional de 48 semanas, com uma aplicação de interferon peguilado alfa 2-a (Pegasys) semanal e ribavirina em função do peso (entre 1.000 e 1.200 mg/dia). Outro grupo, também de 448 pacientes, recebeu nas primeiras 12 semanas do tratamento a administração de duas ampolas de interferon peguilado por semana e nas restantes 36 semanas uma aplicação por semana, recebendo a mesma dosagem de ribavirina.

Conforme já foi demonstrado por outros estudos, neste também não foi observado um beneficio que justifique a utilização de uma alta dosagem de interferon peguilado. O grupo que recebeu a dosagem de indução nas primeiras 12 semanas obteve 53% de resposta terapêutica contra 50% conseguida pelos que receberam o tratamento com a dosagem normal.

Mas o interessante dos resultados apresentados pelos pesquisadores foi a analise realizada em função do grau de fibrose dos pacientes, constatando mais uma vez que o grau de fibrose e um fator importantíssimo na possibilidade de se conseguir a cura da hepatite C.

Na semana 4 do tratamento 34% dos pacientes com fibrose F0, F1 ou F2 se encontravam indetectáveis (resposta rápida) contra somente 21% dos pacientes com fibrose F3 ou F4.

O valor preditivo para se saber quantos alcançariam a cura nesses pacientes teve acerto de 80% nos pacientes com fibrose F0, F1 e F2 e de somente 63% nos pacientes F3 ou F4. Isso significa que a menor fibrose existe maior possibilidade de sustentar a não detecção do vírus após o final do tratamento.

A recaída virológica, isto é, aqueles que ao final do tratamento se encontravam indetectáveis, mas que 24 semanas após o tratamento apresentavam novamente o vírus teve relação direta com o grau de fibrose. Nos pacientes com fibrose F0 a recaída virológica após o tratamento aconteceu em 16%; nos pacientes com F1 aconteceu em 23% e. nos pacientes com F2 em 26%. Nos pacientes com fibrose avançada ou cirrose a recaída virológica após o final do tratamento foi muito alta, sendo que em 50% dos pacientes com fibrose F3 o vírus voltou a estar presente e, nos casos dos pacientes com cirrose (F4), 80% deles recidivaram.

Neste estudo realizado com 896 pacientes a resposta sustentada (cura) nos infectados com o genótipo 1 da hepatite C foi obtida por 70% dos pacientes com fibrose F0; por 60% dos pacientes com fibrose F1; por 51 dos pacientes com fibrose F2; por 31% dos pacientes com fibrose F3 e, por 10% dos pacientes com cirrose (fibrose F4).

Concluem os autores que o aumento da dosagem de interferon peguilado não aumenta a possibilidade de sucesso no tratamento da hepatite C, mas alertam que o grau de fibrose é um fator fundamental na possibilidade de cura.

MEUS COMENTÁRIOS:

O estudo confirma algumas situações muito importantes para o tratamento da hepatite C. Uma delas e que uma dosagem maior de interferon não ocasiona nenhum beneficio, mas por outro lado confirma indiretamente que não todos os pacientes deveriam ser tratados de forma igual já que outros pesquisadores também observaram que pacientes com fibrose avançada ou cirrose apresentam maior possibilidade de recidiva do vírus, o que sugere que tais pacientes deveriam receber 72 semanas de tratamento. Diversos estudos mostram que nesses casos o percentual dos pacientes que não perdem o tratamento e menor se o tratamento chega as 72 semanas.

A constatação mais importante e em relação ao grau de fibrose e a possibilidade de cura. Protocolos e consensos atuais insistem em não recomendar o tratamento de infectados com a hepatite C que apresentem pouco dano hepático, mas será que aguardar esse paciente chegar a desenvolver um grau de fibrose maior para receber o tratamento é uma decisão correta?

Quando se sabe que, no genótipo 1, se o grau de fibrose e F0 ou F1 a possibilidade de cura da hepatite C se situa entre 60 e 70% será que vale a pena aguardar esse paciente chegar a desenvolver um grau de fibrose F3 para ser tratado? Com fibrose F3 a possibilidade de cura será menos da metade, de somente 31%.

É necessário discutir quanto antes se as atuais recomendações de tratamento estão realmente corretas em relação ao genótipo 1 da hepatite C. Não falo em relação aos genótipos 2 ou 3 porque nesses genótipos nem sequer seria necessária a realização da biopsia. Todos deveriam receber o tratamento da hepatite C, já que a possibilidade de cura e muito alta e nos casos de fibrose mínima ou moderada passa dos 90%, com somente 24 semanas de tratamento.

O atual protocolo de tratamento da hepatite C no Brasil foi discutido em função do custo do tratamento quando estados ainda pagavam mais de R$. 1.500,00 por ampola de interferon peguilado, mas atualmente, com a compra centralizada no ministério da saúde o custo médio de uma ampola de inteferon peguilado se encontra em aproximadamente R$. 360,00.

Em 2010 com a mesma despesa se consegue tratar quatro vezes o número de pacientes do que se tratava em 2007, mas lamentavelmente essa economia não resultou no aumento no número de pacientes tratados. Em 2007 aproximadamente 8.500 pacientes foram tratados pelo SUS. Em 2010 é estimado que entre 10.500 e 11.000 pacientes recebam tratamento, um aumento de aproximadamente 26% em três anos, o que representa um crescimento de 7,6% a cada ano.

Pretender que com a economia no medicamento fossem tratadas quatro vezes mais de pacientes seria uma exigência absurda, pois estaríamos falando em 34.000 tratamentos em 2010, mas ficar satisfeitos com somente 11.000 tratamentos ante uma população estimada em 3,5 milhões de infectados também não é um número que possa ser aceito com tranqüilidade.

Este artigo foi redigido com comentários e interpretação pessoal de seu autor, tomando como base a seguinte fonte:
Low virological response and high relapse rates in hepatitis C genotype 1 patients with advanced fibrosis despite adequate therapeutic dosing - Cheng WS, Roberts SK, McCaughan G, Sievert W, Weltman M, Crawford D, Rawlinson W, Marks PS, Thommes J, Rizkalla B, Yoshihara M, Dore GJ; on behalf of the CHARIOT Study Group. - Royal Perth Hospital, Perth, Australia - Journal of Hepatology. 2010 - Jun 16.


Carlos Varaldo
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