GRUPO OTIMISMO DE APOIO AO PORTADOR DE HEPATITE
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Públicado em 04/06/2002 - Jornal do Brasil - Caderno B - Editorial


Hospitais da vida real e da ficção

Filme lembra transplante ocorrido no Rio


Carlos Varaldo (*)

Um ato de coragem mostra o drama de um pai que tenta salvar o filho, desesperadamente, através de um transplante. O filme se passa nos EUA, mas poderia ser ambientado no Brasil, pois, situações que poderiam perfeitamente fazer parte do cotidiano brasileiro são mostradas no enredo. Problemas com planos de saúde que não dão cobertura a certos tratamentos, hospitais que fazem triagem de seus pacientes pela conta bancária, exigindo depósitos ou cartões de crédito como garantia, médicos que deixam de lado a ética para ganhar comissões, ou bônus, por exames não prescritos a seus doentes ou o drama dos pacientes em lista de espera por um órgão. O roteiro ressalta claramente o desespero do pai para salvar a vida do filho, custe o que custar, inclusive a própria vida.

A história foi adaptada de uma situação real que aconteceu nos Estados Unidos em 1993. Uma declaração de um transplantado a um jornal - onde dizia: ''se eu não fosse rico não teria conseguido esse coração e estaria morto'' - sensibilizou particularmente o diretor Nick Cassavetes, que passou por situação semelhante com a filha, que tem um problema congênito no coração e já foi submetida a quatro cirurgias. ''Quando seu filho está doente, é como se você estivesse num túnel; nada mais importa. Conheço bem as dificuldades que advêm dos planos de saúde, hospitais e médicos''', afirmou o diretor na época do lançamento do filme.

A produção tem muito em comum com a realidade da saúde no Brasil. Quem não foi vítima, certamente conhece alguém que já passou por problemas quando precisou usar seu plano de saúde ou que teve que enfrentar a triagem, corriqueira em alguns hospitais. O filme revela também outras semelhanças com o Brasil. É o caso dos políticos que, em ano eleitoral, tentam mostrar eficiência com promessas vazias. Ou ainda a forma de atuação dos apresentadores de TV, que querem conquistar a audiência através de apelos sensacionalistas.

Poucas cenas diferem da situação ocorrida recentemente num hospital do Rio de Janeiro, quando foi necessário intervenção policial para permitir a realização de um transplante. Ambas as situações (a da vida real e a da ficção) aconteceram na noite de um sábado, o que ressalta a falta de estrutura especializada, tanto médica como administrativa, nos feriados e fins de semana, indicando a conveniência de se ficar doente somente em dias úteis e, sobretudo, durante o horário comercial.

A ação policial no Rio de Janeiro foi, no entanto, mais eficiente e humanitária. Sem necessidade de armas ou de qualquer ação espalhafatosa, conseguiu convencer os plantonistas do setor administrativo do hospital, que desconheciam a legislação e os procedimentos nesses casos, da necessidade humanitária da captação de órgãos.

O filme é recomendável a administradores de planos de saúde, diretores de hospitais, médicos, enfermeiros e estudantes de medicina, para que aprendam como não se deve agir na profissão. Para os políticos, o filme deveria ser de exibição obrigatória, para que entendam melhor o drama da saúde pública.

(*) - Carlos Varaldo é presidente do Grupo Otimismo de Apoio a Portadores de Hepatite





Last updated 30.10.2006