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07/06/2010


Maratona do absurdo


Um relato da via-crúcis enfrentado por pacientes em tratamento no SUS quando não recebem os medicamentos e devem recorrer a Justiça, mas em estados como o Rio de Janeiro, onde não adianta o Juiz decretar a prisão do secretário da saúde, já que o Senhor Secretário está amparado por um "habeas corpus preventivo", ficando como única opção mandar retirar o dinheiro da conta do estado para o próprio paciente comprar os medicamentos numa farmácia.

Tal qual acontece nas hepatites, segue "Opinião" da jornalista Cátia Moraes.



Maratona do absurdo


CÁTIA MORAES (Coluna Opinião do Jornal O Globo - 05/06/2010)

Apropósito do oportuno e esclarecedor artigo do médico Paulo Sá (2/6 - segue ao final), que chamou a atenção dos eleitores para os entraves oportunistas do tratamento médico e do fornecimento de medicamentos aos pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS), é esclarecedor contar uma história que ilustra as dificuldades e até humilhações que, certamente, milhares de brasileiros enfrentam diariamente para ter direito, de fato, ao que está estabelecido na "lei".

C. E., 35 anos, conheceu a viacrúcis muito cedo. Portadora de epilepsia, transtorno afetivo bipolar, depressão com sintomas psicóticos e transtorno de personalidade, é uma paciente crônica, impossibilitada de trabalhar.

Sem condições de pagar o tratamento e o "coquetel" de medicamentos, ela enfrenta, lúcida e bravamente, a inacreditável maratona para conseguir os oito remédios - ao custo mensal de R$ 787,45 - de que precisa para evitar crises que já conhece e teme: "Choro muito, tenho vontade de quebrar tudo, imagino que as pessoas estão me olhando, me criticando, e até barulhos como os de uma simples televisão me perturbam a ponto de pensar em suicídio, o que acaba gerando crises epiléticas." O diagnóstico - é bom que se diga - foi prescrito por médicos do SUS.

Uma médica a orientou a procurar as farmácias públicas. Nas do Município, ela não conseguia nem carbonato de lítio. Nas do Estado, que - em tese - fornecem medicações controladas, como antidepressivos e ansiolíticos, ela empacou na bur(r)ocracia de um sistema desumano.

Para obter os remédios, sua médica do SUS preencheu um formulário da própria farmácia, com laudo médico e as receitas das medicações, enquanto sua psicóloga preenchia o laudo psicológico. O prazo para análise do "pedido" demorou mais que os 90 dias estabelecidos por lei.

Diante disso, a farmacêutica do Estado a orientou a procurar a Defensoria Pública, para solicitação por via judicial. De posse de toda a documentação, C. E. descobriu, no Fórum, que precisava ainda de três orçamentos de todas as medicações.

Um mês e meio depois, o juiz aprovou a concessão das medicações, por serem especiais e por se tratar de um caso de risco de vida, com possível internação. Mas... a via-crúcis continuou. Como as farmácias públicas não dispõem dessas medicações, o juiz bloqueia os valores até que seja feita a aquisição por uma parte de uma farmácia indicada. Ou seja, é preciso esperar o alvará judicial.

E continua a maratona do absurdo. Para que o alvará seja concedido, C. E. marca hora para entregar, na semana seguinte, as negativas fornecidas pela farmacêutica ao Defensor Público. Só depois de o Defensor fazer a inclusão da negativa no processo é que ela pode ir ao cartório para solicitar a liberação do alvará, que demora de sete a dez dias. Só então é que ela recebe o documento que permite sacar, no banco localizado dentro do Fórum, o valor necessário para comprar os remédios.

Feita a compra dos mesmos... mais obstáculos! C. E. tem cinco dias úteis para prestar contas ao Defensor, sendo que o não cumprimento da prestação implica em autuação e mandado de prisão da paciente.

Para não ser presa, ela tem de marcar outro horário para a semana seguinte, e, assim, ir novamente ao Fórum para entregar as notas fiscais e fazer a devolução judicial dos valores que porventura sobrarem. Tudo isso é feito a cada vez que ela precisa dos medicamentos. Muitas vezes, em meio a crises provocadas pelos atrasos dos remédios e à dor de conviver com tantas limitações na própria vida.

C. E. não tem de se envergonhar. É uma guerreira, que sofre de males emocionais e mentais impregnados de estigma e desinformação. Quem deve ter vergonha são os (ir)responsáveis pela política pública de saúde, que não cuidam dos brasileiros que mais precisam, que não fazem campanhas de esclarecimento sobre problemas cada vez mais graves, como a depressão, o pânico, a ansiedade e os transtornos mentais. Isto, sim, é coisa de maluco.

CÁTIA MORAES é jornalista.



Atenção, eleitor!


PAULO SÁ (Coluna Opinião do Jornal O Globo - 02/06/2010)

A Comissão de Assuntos Sociais do Senado aprovou um novo capítulo na Lei Orgânica de Saúde que prevê uma série de exigências ao Estado para garantir tratamento médico e fornecimento de medicamentos aos pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS). Todos os medicamentos e procedimentos deverão ser devidamente aprovados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Disciplinar o processo de aquisição de novas tecnologias é uma iniciativa louvável. Mas o processo que agora segue para tramitação na Câmara dos Deputados merece uma análise mais profunda e cuidadosa.

Com o apoio do governo, a iniciativa é uma tentativa do Congresso de frear o fenômeno chamado de judicialização da saúde no qual pacientes diante da carência de remédios entram com ações judiciais para garantir o acesso ao medicamento. Caso o Estado não providencie uma solução, o resultado costuma ser mandados de prisão do secretário de Saúde ou bloqueio das contas públicas. Ações de pouco efeito imediato para o doente, mas de grande impacto social, que resultam em uma imagem negativa para o político. No final, tudo se resolve ainda na base do grito. Assim tem sido nos últimos anos. Portanto, mudar essa realidade é uma necessidade emergencial.

Se aprovado, o projeto de lei (PL) obriga o SUS a atualizar todos os anos a lista de remédios, que não é alterada, pasme, há quase uma década! Ao longo deste período, o sistema de saúde foi sendo sucateado e o orçamento para a pasta não acompanhou o crescimento e o envelhecimento da população brasileira.

Do ponto de vista do paciente, o acesso à tecnologia da saúde - exames complementares, procedimentos e medicamentos - deve ser amplo e sem restrições. Para uma sociedade que prevê no texto constitucional que a Saúde é um direito de todos e dever do Estado, os governantes deveriam ter o compromisso de nunca usar como desculpa a falta de dinheiro público para a assistência. Trata-se, claramente, de uma questão de prioridade de investimentos. E a Saúde há muito tempo ficou de lado na agenda política.

Um dos argumentos que levaram a discussão ao Congresso foi o desequilíbrio nas contas públicas da União, estados e municípios gerado pelo processo de judicialização da saúde. A pergunta é: como, então, o dinheiro vai aparecer para comprar esses medicamentos? E os pacientes que precisam já? Por que não recebem a devida atenção, precisando entrar na Justiça para garantir o acesso ao tratamento adequado? Acontece que na forma pela qual se realiza o financiamento do SUS, o elo mais fraco, o município, acaba por arcar com a parte mais pesada do orçamento da Saúde. Isso porque os repasses da União e dos estados nunca são suficientes para fechar a conta.

A Lei Orgânica da Saúde estabelece que o financiamento da saúde será uma coparticipação da União, estados e municípios.

Desde a Norma Operacional Básica de 1996, seguida de diversas outras normas chegando ao Pacto pela Saúde, o financiamento da saúde foi baseado em séries históricas de produção de procedimentos e de valores pagos décadas atrás. Assim, o repasse da União para os municípios é baseado em uma tabela de procedimentos completamente defasada em termos de custo para realização do procedimento, mesmo tendo sido atualizada recentemente. Isso proporciona, nos municípios, um rombo em suas contas, pois eles têm que completar a diferença com o próprio orçamento.

Considerando que a maioria dos municípios brasileiros possui baixa receita em arrecadação, aqueles que são mais pobres são punidos mais uma vez, pois recebem pouco repasse e não possuem orçamento para complementar. O jogo continua perverso, os mais ricos têm mais e os mais pobres muito pouco. Por mais que a União alegue realizar compensações no repasse financeiro, elas não passam de maquiagem sempre atrelada a conchavos políticos.

Tão importante quanto novas leis é a sociedade organizada criar instrumentos de pressão. Em ano de eleição, é importante que o eleitor fique atento aos debates dos pré-candidatos e às suas respectivas propostas para a área de Saúde, pilar fundamental, junto com a Educação, para o crescimento sustentável de um país.

PAULO SÁ é médico e professor da Faculdade de Medicina de Petrópolis.

Carlos Varaldo
Grupo Otimismo






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Last updated 5.6.2010