22/12/2009
O famigerado check-up
Dr. Alessandro Loiola*/Especial para BR Press
Em 1947, a Associação Médica Americana passou a recomendar um exame médico anual de rotina para todas as pessoas saudáveis a partir dos 35 anos de idade. Na época, o conceito de pessoas saudáveis procurando atendimento médico na ausência de qualquer sintoma parecia uma coisa meio radical. Mal sabíamos nós, reles ocidentais, que por volta de 2.500 a.C. o Imperador chinês Huang Ti já dizia que "o médico mais dedicado é aquele que age antes do surgimento da doença".
Ainda que este seja um conceito atraente para as operadoras de planos de saúde da atualidade, ansiosas por cortar custos, não acredito que ele faria muito sucesso entre os médicos especialistas - que simplesmente amam uma doença. Sim, médicos especialistas amam doenças. Se você duvida, simule uma síndrome clássica na frente da sua endocrinologista com mestrado na USP, tire uma foto do sorriso de felicidade dela e mande para os amigos conferirem se estou errado.
O fato é que décadas depois da surpreendente percepção do óbvio feita pelos americanos, algumas estatísticas mostraram que a expectativa média de vida aumentou para todos os brasileiros: em 1980, uma pessoa que completasse 60 anos de idade teria, em média, mais 16,4 anos de vida. Hoje, um indivíduo na mesma situação alcançaria, em média, os 80,6 anos. São aí por baixo uns 4 anos de vida a mais - ou um mandato inteiro de presidente! Penso neste momento que, dependendo do presidente, eu até abriria mão destes 4 anos adicionais.
Enfim, parte da resposta para o aumento na expectativa de vida pode estar nas campanhas para exames médicos periódicos. É através destes exames que se torna possível descobrir os riscos de cada pessoa e elaborar abordagens preventivas específicas para cada caso.
Sinceridade
Mas é essencial ter uma relação de confiança com seu médico, ou você corre o risco de mentir ou omitir certas informações críticas, impedindo um raciocínio mais consciente dos seus riscos. E aí depois você vai descer a lenha no camarada porque ele não pediu tal exame ou não passou tal remédio, mas irá - mui diligentemente - esquecer de mencionar que não contou tudo que devia.
Para evitar esses mal-entendidos, durante a consulta de check-up gosto de seguir um roteiro de assuntos, feito um piloto com aquela prancheta antes do avião decolar. É preciso passar um papo rápido sobre tabagismo, obesidade, hipertensão, diabetes, nível de atividade física, dieta, consumo de bebidas alcoólicas, vacinas, depressão, disfunção sexual, doenças sexualmente transmissíveis e medicamentos de uso contínuo (faz uso de algum? Vem tomando conforme a recomendação ou fica só olhando para a caixa e esperando que faça efeito?)
Homens e mulheres
Além do exame médico, no caso dos homens, o check-up também deve incluir medição da altura e do peso (e cálculo do índice de massa corporal); aferição da pressão arterial; dosagem de colesterol total e frações, triglicerídios, glicose, anti-HIV, PSA (a partir dos 40 anos de idade), pesquisa de sangue oculto nas fezes (a partir dos 50 anos) e marcadores sanguíneos para hepatite B e C.
Para as mulheres, as coisas se modificam um pouco: ficam mantidas a medição da altura e do peso (e cálculo do índice de massa corporal); a aferição da pressão arterial; a dosagem de colesterol total e frações, triglicerídios, glicose, anti-HIV, a pesquisa de sangue oculto nas fezes (a partir dos 50 anos) e de marcadores sanguíneos para hepatite B e C. E somam-se a estes o preventivo ginecológico, a mamografia (a partir dos 40 anos) e a densitometria óssea (a partir da menopausa).
Nas misturas de bolo que faço no consultório, adiciono pelo menos uma ultrassonografia abdominal para avaliar a presença de aneurisma da aorta abdominal, especialmente em pessoas que fumaram e que estejam entre 65 e 75 anos.
O exame médico anual de rotina deve servir de ponto de encontro para retirar algumas dúvidas e abordar alguns assuntos que podem influenciar profundamente sua saúde. Se você ainda não acordou para isso, aproveite o fim do ano e o início do próximo e anote este compromisso aí na sua agenda. Seu corpo agradece.
(*) Dr. Alessandro Loiola é médico, escritor, palestrante, autor de Vida e Saúde da Criança e Crianças em Forma: Saúde na Balança (www.editoranatureza.com.br).
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