18/10/2009
No dia do médico, um apelo ao Exm° Ministro da Saúde, Dr. José Gomes Temporão e a Diretora do Programa DST/AIDS/Hepatites, Dra. Mariângela Galvão Simão
A revista Hepatology acaba de publicar um estudo realizado nos Estados Unidos para avaliar o impacto do tratamento da hepatite C na saúde pública do país. O objetivo era determinar o número de pacientes tratados nos Estados Unidos, estimar o impacto destes tratamentos e identificar quais as principais barreiras enfrentadas pelos pacientes.
Foram considerados somente os tratamentos efetuados com interferon peguilado entre os anos de 2002 e 2007 utilizando dados de uma auditoria eletrônica de âmbito nacional realizada de forma permanente pela empresa Wolters Kluwer Inc.
Diversos resultados, como a estimativa de mortes que podem acontecer por causas relacionadas nos próximos vinte anos, os motivos de falta de tratamentos para todos por falta de diagnostico e, identificar as carências não serão comentadas, pois são específicas para os Estados Unidos e não podem ser extrapoladas a outros países.
Mas existe um dado que pode ser comparado com qualquer país do mundo. É estimado que nos Estados Unidos existam entre 3,5 e 4 milhões de infectados com hepatite C, curiosamente um número idêntico ao número estimado de infectados no Brasil.
A pesquisa identificou que entre os anos de 2002 e 2007 aproximadamente 663.000 pacientes receberam tratamento com interferon peguilado e ribavirina. Nos Estados Unidos o interferon convencional deixou de ser utilizado em qualquer genótipo por ser comprovadamente menos eficaz.
Podemos então comprar o resultado com Brasil, onde o número de infectados e praticamente o mesmo. No Brasil foram realizados 75.000 tratamentos no período de 2002/2007. A estimativa inclui pacientes tratados e ou retratados utilizando o interferon convencional e o interferon peguilado, estimando que aproximadamente 75% dos tratamentos são realizados pelo SUS e 25% de forma privada. Os dados são levantados pelo consumo de medicamentos no SUS (DATASUS) comparados com planilhas de importação, assim compreende tratamentos na rede pública e tratamentos privados.
O calculo estimativo mostra que o número total de pacientes tratados a cada ano no Brasil e o seguinte:
Ano 2002: 9.000 tratamentos
Ano 2003: 10.000 tratamentos
Ano 2004: 12000 tratamentos
Ano 2005: 13.000 tratamentos
Ano 2006: 15.000 tratamentos
Ano 2007: 16.000 tratamentos
TOTAL DO PERÍODO 2002/2007: 75.000 tratamentos
Dividindo o número de tratamentos por uma média de 3,5 milhões de infectados em cada país, o percentual de pacientes tratados durante o período de seis anos, de 2002 até 2007, comprovamos que já foram tratados 19% dos infectados existentes nos Estados Unidos (3,16% dos infectados tratados a cada ano), contra 2,2% dos infectados no Brasil (0,37% dos infectados tratados a cada ano). Em números absolutos 1 de cada cinco infectados dos Estados Unidos já recebeu tratamento e, no Brasil, 1 de 45 infectados já foi tratado.
Ao se considerar as atuais recomendações de consenso dos protocolos de tratamento, de tratar pacientes com fibrose F2 ou superior, os quais por diversos estudos representam aproximadamente a metade dos infectados, é possível estimar que os Estados Unidos, sem necessidade de aumentar a capacidade atual, deverão tratar todos os que necessitam tratamento até o ano de 2016. Se o Brasil não aumentar a oferta do tratamento e continuar com o ritmo atual, somente no ano de 2140 todos os pacientes que hoje apresentam fibrose F2 ou superior terão recebido o tratamento necessário.
Neste dia em que devemos agradecer os abnegados médicos que cuidam da saúde da população, concluo com um apelo ao Exm° Ministro da Saúde, Dr. José Gomes Temporão e a Diretora do Programa DST/AIDS/Hepatites, Dra. Mariângela Galvão Simão para que sejam realizados os máximos esforços possíveis para implementar um plano de ação que mude o quadro dramático com o qual nos deparamos no Brasil. É urgente aumentar a oferta de tratamentos aumentando a infra-estrutura de locais de atendimento e de profissionais capacitados. Devemos oferecer testes diagnósticos em toda a rede de saúde pública, identificar os infectados e oferecer atenção e cuidados médicos, tratando aqueles que realmente necessitam para que sua saúde não seja prejudicada.
Com vontade política, determinando ações, procurando os recursos necessários e com os avanços científicos, será possível mudar o quadro dramático com que o Brasil se depara. O primeiro passo foi dado ao se reconhecer que após sete anos improdutivos um programa independente não conseguiu resultado e, por isso, foi necessário incorporar as hepatites no programa DST/AIDS, o qual possui estrutura e credenciais para conseguir enfrentar a maior epidemia já conhecida, mas não devemos ficar somente nas boas intenções, sendo necessário que agora seja apresentado um cronograma de ações quantitativo das ações e recursos que serão alocados.
Mudar o quadro nas hepatites será o maior e mais justo homenagem que os médicos que cuidam da doença poderão receber!
Este artigo foi redigido com comentários e interpretação pessoal de seu autor, tomando como base a seguinte fonte:
-Public health impact of antiviral therapy for hepatitis C in the United States - Michael L. Volk, Rachel Tocco, Sameer Saini, Anna S.F. Lok - Division of Gastroenterology and Hepatology, University of Michigan, Ann Arbor, MI - Correspondence to Michael L. Volk, Division of Gastroenterology and Hepatology, University of Michigan Health System, 7C27 NIB, 300 N. Ingalls, Ann Arbor, MI 48109 - American Gastroenterological Association Foundation - Hepatology. 2009 Published Online: 10 Aug 2009
- Consumo de medicamentos das tabelas do DATASUS, não mais disponíveis a partir de janeiro de 2008.
Carlos Varaldo
Grupo Otimismo
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