28/11/2009
A desilusão das ONGs que lutam pelas hepatites
Aconteceu esta semana em Brasília o Encontro Nacional das ONGs de Hepatites Virais - ENONG, do qual o Grupo Otimismo não participou, mas que merece alguns comentários para conhecimento geral, comentários esses que inevitavelmente nos levam a realizar comparações com os ENONGs realizados pelos ativistas da AIDS.
INTRODUÇÃO PARA ENTENDER COMO FUNCIONA UM ENONG:
O Programa Nacional de Hepatites Virais PNHV financia um ENONG todos os anos, já o pessoal da AIDS o realiza somente a cada 2 anos. O PNHV assume totalmente o encontro, oferecendo passagens, transfers, hospedagem e alimentação para todas as ONGs que desejarem participar com até duas pessoas, tudo pago pelo PNHV. O ENONG de hepatites e na modalidade "
all inclusive", mas ou menos como as excursões a Disney. Cada ONG pode levar até duas pessoas, com passagens de avião, traslados, hotel e refeições por conta do governo.
O Programa de AIDS somente colabora com uma pequena parte do financiamento, cabendo as ONGs conseguirem o restante dos recursos. Na AIDS cada ONG que quiser participar deve pagar sua passagem, pagar sua estadia e comida e, ainda, pagar R$. 70,00 de inscrição.
Essa política da AIDS visa que somente as ONGs realmente interessadas e comprometidas participem, pois ao não receber tudo de graça se evita que ONGs que nada fazem nas suas cidades participem, evitando o turismo com recursos da saúde. As ONGs que realmente estão fazendo um bom trabalho na sua região terão suficiente visibilidade para facilmente conseguir a passagem e estadia, seja na secretaria municipal ou com empresas da sua cidade. É uma excelente forma de "filtrar" as ONGs e selecionar somente as verdadeiramente atuantes.
OBJETIVOS DOS ENONGs:
O objetivo de um ENONG é que as próprias ONGs discutam abertamente as políticas e façam reivindicações. Já participei de dois ENONG de AIDS, e posso assegurar que aquilo mais parece uma arena de gladiadores que uma assembléia, mas isso e muito bom, pois e na argumentação e até no grito que as idéias devem se discutidas para se chegar a um consenso.
Participei dos sete ENONGs de hepatites, mas decidi não comparecer a este último, pois mais que uma discussão entre ONGs a pauta parece a de um seminário, onde médicos apresentam como tratar à doença e gestores aquilo que estão realizando. As ONGs não podem realizar perguntas a viva voz sendo obrigadas a fazer por escrito, para um moderador as ler ao final da apresentação, sem poder interromper. Convenhamos que essa forma seja muito diferente no seu efeito. Um questionamento realizado pelo próprio quando dirigido a um gestor, na devida entoação de voz, e muito diferente que uma pergunta lida por um coordenador.
O objetivo do Programa de AIDS sempre foi o de que as ONGs gritem e reivindiquem, pois isso outorga força ao programa, já que se a gritaria e grande o ministério deve alocar recursos financeiros para atender. É a máxima de "quem não chora não mama". Com essa estratégia, utilizando a grita das ONGs, conseguiram montar o maior e melhor programa de AIDS do mundo.
Assim como uma empresa e avaliada pelo seu faturamento, um programa de saúde deve ser avaliado pura e exclusivamente pelo número de tratamentos oferecidos a população. De nada interessa apresentar que foram capacitados tantos profissionais, que foram realizadas tantas visitas aos estados, que foram impressos tantos folhetos, o que interessa a população e saber se tem tratamentos suficientes e sem burocracia.
Por esse indicador o Programa de AIDS e totalmente vitorioso, pois se encontram em tratamento 1 de cada 3 infectados com HIV/AIDS. Na hepatite C, utilizando o mesmo indicador, vemos que somente 1 de cada 350 infectados com hepatite C recebeu tratamento em 2009 e, na hepatite B, o número e alarmante, pois somente 1 de cada 900 infectados recebe tratamento atualmente. Esses números mostram o resultado após sete anos da criação do programa de hepatites. Nem sequer é necessário realizar qualquer comentário para ver que a coisa não deu certo.
Uma das formas para evitar denuncias que mostrem a realidade e tentar convencer as ONGs das hepatites a ficarem caladas. Dirão que muito se fez nas hepatites e concordo com isso, pois muito se fez, mas essas ações não resultaram em tratamentos para a população, os quais, nos últimos três anos praticamente estão estagnados em aproximadamente 10.000 tratamentos por ano na hepatite C e 2.000 na hepatite B. Realmente a intenção dos quatro gestores que passaram pelo programa de hepatites foi boa e honesta, quanto a isso não fica a menor duvida, mas a boa intenção não resultou em aumento da oferta de tratamentos e, isso é o que interessa ao infectado.
GASTOS COM OS ENONGs:
O programa de AIDS financiou R$. 50.000,00 (talvez fossem cem mil, me corrigem se estou errado) para organizar o ENONG estimando o comparecimento de até 500 ONGs, sendo que o restante do dinheiro para viabilizar o ENONG deveria ser providenciado pelas próprias ONGs. Assim foi combinado e o ENONG 2009 da AIDS foi um sucesso.
O Programa de hepatites para realização do ENONG 2009 financiou quatro encontros regionais, de três dias cada em quatro capitais, onde compareceram umas 80 pessoas, mas uma reunião de dois dias em Brasília com 12 pessoas para organizar a pauta e, finalmente o ENONG 2009 com umas 70 pessoas (representando menos de 30 ONGs).
Estimando por alto a despesa nas hepatites, foram emitidas entre 120 e 150 passagens aéreas, entre 300 e 400 diárias de hotel ou reembolso de diárias e, umas 800 refeições (almoço e jantar). Comparando a despesa do governo com cada ONG que compareceu efetivamente a um dos ENONGs, vemos que cada uma ONG da AIDS custou entre R$. 150,00 e R$. 300,00 ao Departamento DST/AIDS, já cada ONG de hepatites ocasionou uma despesa de aproximadamente R$. 5.000,00 aos cofres do governo. É possível continuar assim, somente para evitar que as ONGs falem a real situação do programa, para evitar criticas?
PARTICIPAÇÃO DAS ONGs NO ENONG:
Das aproximadamente 80 ONGs de hepatites existentes no Brasil, menos de 30 compareceram ao ENONG 2009. As 65% restantes, desiludidas com os objetivos decidiram não participar. Curiosamente o não comparecimento foi um movimento espontâneo, pois não teve nenhum e-mail conclamando não comparecer e não existiu nenhum boicote. Foi pura e simples falta de credibilidade em quem estava organizando e, sabendo que não valia à pena ficar quatro dias fora de casa abandonando a família, simplesmente não se sentiram motivadas. Apesar de se oferecer tudo grátis, a maioria dos coordenadores das ONGs sabe que não existe lanche grátis, lamentavelmente alguns ainda teimam em ver somente um lado da moeda, pois de ilusão também se vive.
O fato de 65% das ONGs não comparecer ao ENONG das hepatites é uma clara demonstração que a maioria não acreditou em quem estava organizando, não acredita no sistema atual de gerenciamento do programa de hepatites, não confia na atual articulação com o movimento social e, cansou das promessas sempre realizadas e nunca efetivadas.
Cabe destacar que ENONG 2009 não representou o pensamento do movimento das ONGs de hepatite porque somente 35% delas estavam presentes. Foi mais um ENONG perdido.
A EXPERIÊNCIA COM O ACONTECIDO NO ENONG DEVE AJUDAR A MUDAR:
Afortunadamente acaba de acontecer uma revolução nas hepatites. O PNHV foi incorporado pelo Departamento DST/AIDS, agora chamado de Departamento DST/AIDS/HEPATITES. Muita coisa vai mudar, para melhor, pois a gerencia desse departamento é profissional e experiente, conhecedores da sua função, sempre apresentando fantásticos resultados.
Com certeza saberão que é muito mais fácil esquecer o passado e criar uma nova forma de trabalho. Tentar consertar o existente será muito mais difícil e demorado que fazer tudo partindo do zero. Devemos esquecer o passado e o tempo perdido, sem culpar ninguém, mas não devemos perder mais tempo, pois a cada dia que passa muitos continuam a morrer por culpa das hepatites B e C. Não podemos perder, também, o ano de 2010!
FINALIZANDO:
Este texto vai fazer com que um maior número de pessoas discorde e não gostem das minhas opiniões, mas essa e minha forma de atuar e continuará a ser, independente de continuar a ser criticado pelas costas. As minhas opiniões e criticas são abertas, de frente, dando a cara, não as realizo covardemente sem as comunicar ao criticado. Pode não ser a melhor opinião, mas é uma opinião de quem está 12 anos na luta pelos infectados com as hepatites e continua atuando na mesma linha.
Com o baixo comparecimento ao ENONG 2009 o ministério da saúde deve ter aprendido que você pode enganar uma pessoa por muito tempo; algumas por algum tempo; mas não consegue enganar todas por todo o tempo.
Carlos Varaldo
Grupo Otimismo
Carlos Varaldo e o Grupo Otimismo declaram não possuir conflitos de interesse com eventuais patrocinadores das diversas atividades.
Aviso legal: As informações deste texto são meramente informativas e não podem ser consideradas nem utilizadas como indicação medica. É permitida a utilização das informações contidas nesta mensagem desde que citada a fonte como retiradas de WWW.HEPATO.COM
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