28/06/2010
Esclarecimentos finais sobre o artigo da Folha de São Paulo: ''Hepatite C é ligada a jovens que fazem sexo com muitas pessoas''
Recebi um e-mail de um conhecido pesquisador alertando sobre a necessidade de uma leitura atenta da amostra de indivíduos incluídos na pesquisa para poder saber se o resultado representa a população brasileira. Alerta o pesquisador sobre o fato porque a qualidade de uma estatística e diretamente influenciada pelo "n" (numero de indivíduos numa pesquisa ou subgrupo dela). Se o "n" atribuído for significativo o resultado será aceito pela comunidade cientifica, já se o "n" for pequeno o resultado possui certamente um desvio estatístico importante e não pode ser considerado como um valor definitivo.
A divulgação deste tipo de analise de desvio estatístico servirá para que todos aqueles infectados que por culpa da interpretação da reportagem estão sofrendo maior estigma ou discriminação, possam ter argumentos para se defender, para evitar serem isolados socialmente.
Vejamos então os valores da tal pesquisa, conforme publicado na Tabela 1:
Total de indivíduos com o genótipo 1-a da hepatite C: 183 indivíduos.
Para pode saber a possibilidade da transmissão sexual deve se descartar os indivíduos que conhecidamente estão incluídos em grupos de alto risco de infecção, tal como os usuários de drogas, os quais segundo a própria tabela 1 representavam 25.1% da amostra (46 indivíduos), os usuários de drogas inaladas com sangramentos nas narinas, representando 18,31% (34 indivíduos) e os que apresentavam tatuagem, que representavam 34% (52 indivíduos), pois todos eles são indivíduos enquadrados nas vias de alto risco de infecção com a hepatite C, assim (trabalhando exclusivamente com dados publicados na tabela), os indivíduos com causas desconhecidas da via de infecção representam 27,9% do total, ou seja, somente 51 indivíduos, número esse aceito pelos pesquisadores na própria tabela 1.
Entre estes 51 indivíduos deveria ainda se considerar aqueles em que a infecção pode ter acontecido por diversos motivos, que podem ser desde transfusão de sangue, aplicação de injeções e vacinas quando as seringas eram de vidros, no dentista, na manicure, em procedimentos cirúrgicos e percentualmente deveriam ser excluídos para então estimar as prováveis transmissões sexuais, depuração que não aconteceu.
Mas vamos ser exagerados e assumir que os 51 se infectaram sexualmente e nenhum deles por outras causas. OK, pessoalmente em parte nenhuma da pesquisa encontrei quantos deles tinham realizado sexo com menos de 5 parceiros, quantos indivíduos tinham entre 5 e 50 parceiros e, quantos tinham mais de 50 parceiros sexuais (pode ser que esses dados existam, mas confesso que não achei a informação). Excluídos os indivíduos oriundos de grupos de alto risco, ou seja, considerando somente esses 51 indivíduos quantos tinham mais de 50 parceiros sexuais? O número é fundamental para embasar qualquer resultado, mas com certeza, seja qual for o percentual incluído nos 51 indivíduos a número sempre será mínimo, insignificante.
Os pesquisadores encontraram então que os indivíduos com mais de 50 parceiros sexuais (entre o total de 183 e não especificamente nesses 51 indivíduos) apresentavam um índice de prevalência de hepatite C superior aos outros grupos e por dedução estatística é que surge a alegação que a hepatite C se transmite se o número de parceiros sexuais (rede social segundo a terminologia deles) for superior a 50.
O que se pode deduzir disso? Que pelo tipo de indivíduos incluídos na pesquisa a mesma foi realizada em uma população de alto risco (maioria de usuários de drogas), portanto não é representativa da população brasileira em geral. Uma amostra seletiva em determinado médio social pode induzir o resultado. Se os pesquisadores afirmassem que a amostra representa a população brasileira em geral, então estarão denunciando que 43,41% dos brasileiros são usuários de drogas e 34% estão tatuados. Em cada família de quatro pessoas, três deles estariam incluídos em grupos de alto risco. Isso é possível de imaginar? É possível colocar num jornal que isso e a realidade da hepatite C no Brasil, que esse grupo especifico pode ser utilizado para generalizar as conclusões?
Divulgar informações "científicas" dessa forma é uma forma de discriminação moral de parte da população e deveria ser reparada judicialmente. O resultado desse tipo de divulgação poderá resultar em considerável aumento da discriminação, assim, quem é infectado com hepatite deixa de ser um cidadão, passando a ser um excluído.
O Artigo 3, parágrafo 4 da Constituição federal determina que Constituem objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação.
Curiosos resultados nas pesquisas
Pesquisas e estatísticas muitas vezes não representam a realidade. Quando do surgimento do inteferon peguilado no Brasil uma equipe de pesquisadores de uma universidade realizou um estudo em 72 pacientes e o resultado foi divulgado que o interferon peguilado tinha conseguido a cura de 100% dos pacientes. Um resultado incrível, se não fosse o fato que estavam se referindo ao genótipo 3 e que no total dos indivíduos incluídos somente três possuíam o genótipo 3. Como os três curaram a doença então o índice de cura era de 100%. Mas com um "n" pequeno o dia a dia mostra claramente que a afirmação era incorreta e inverídica cientificamente, mas foi o que foi divulgado publicamente. Nessa pesquisa também se utilizou um número pequeno de indivíduos para se dar uma notícia "bomba".
Outra pesquisa interessante foi realizada na década de 30 e 40 por um pesquisador alemão. Nela se mostrava que a raça Ariana era superior e a descendência judia inferior. Baseado nesses dados Hitler eliminou seis milhões de judeus, pois os pesquisadores tinham afirmado que era uma raça inferior.
Assim como apareceu no Twitter após a publicação do artigo da Folha de São Paulo, os infectados com hepatite C agora são considerados seres inferiores, "safadinhos", dos quais deve se ter muito cuidado. Deus queira que não apareça algum político que interprete a pesquisa e queira "eliminar" os infectados.
(Em Tempo, colocamos ao final do artigo do dia 30, e-mail enviado por um dos pesquisadores.)
Carlos Varaldo
Grupo Otimismo
Carlos Varaldo e o Grupo Otimismo declaram não possuir conflitos de interesse com eventuais patrocinadores das diversas atividades.
Aviso legal: As informações deste texto são meramente informativas e não podem ser consideradas nem utilizadas como indicação medica. É permitida a utilização das informações contidas nesta mensagem desde que citada a fonte como retiradas de WWW.HEPATO.COM
O Grupo Otimismo e afiliado a AIGA - ALIANÇA INDEPENDENTE DOS GRUPOS DE APOIO - www.aigabrasil.org
¡ALERTA!
Enquanto você realiza a leitura deste artigo,
¡Mientras usted realiza la lectura de este artículo,
|
1 |
pessoas estarão morrendo por culpa das hepatites B ou C no mundo!
personas estarán muriendo por culpa de las hepatitis B o C en el mundo!
|
A Organização Mundial da Saúde estima que 1,5 milhão de pessoas morrem a cada ano por culpa das hepatites B ou C. Uma morte a cada 20 segundos!
La Organización Mundial de la Salud estima que 1,5 millón de personas mueren a cada año por culpa de las hepatitis B o C. ¡Una muerte a cada 20 segundos!