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A Perigosa Expansão de um Vírus Assassino
Revista Newsweek Internacional

20/05/2002

A integra desta matéria se encontra na edição de Newsweek Internacional do dia 20 de maio de 2002 - Tradução livre do Grupo Otimismo – Brasil

Centenas de milhões estão infetadas com o vírus. A maioria não sabe que se encontra doente


Por Anna Kuchment

Os médicos informaram a Saeed Taha que ele tem só tem algumas semanas de vida. O eletricista de 48 anos, deitado em uma cama de um hospital do Cairo, está com uma infinidade de tubos conectados a seu corpo. Uma década atrás ele foi diagnosticado com hepatite C. Desde aquele instante vive com fadiga permanente, pai de três filhos, perdeu o trabalho e acabou com a poupança para comprar o interferon, uma de duas drogas utilizadas para lutar contra o vírus. Mas não consiguiu eliminar o vírus. “Não acredito o que é dito pelos médicos sobre os medicamentos,” diz ele. “Nesta doença nada faz qualquer diferença.”

Noutra cama esta deitado Abdullah El-Shahhat, 70, que foi diagnosticado há quatro meses mas já têm as pernas e a barriga inchada, uma característica da doença mais avançada. Os dois estão entre os 15 a 25 por cento de egípcios infetados com a hepatite C, a taxa mais alta de infecção em qualquer país no mundo. Muitos contraíram isto da mesma maneira, como Taha: por uma campanha do governo, iniciada em 1961 para lutar contra a esquitososmoses. Milhões de egípcios usaram agulhas não esterilizadas ao se utilizar pistolas para inoculação em massa. Sayyeda Hassan Metwally, 54, se lembra de uma enfermeira que usou a pistola em 11 parentes e quatro vizinhos com uma única agulha. A campanha só terminou quando uma droga oral entrou no mercado em 1982. Agora o governo está trabalhando para controlar uma epidemia que ele mesmo ajudou a criar.

Esta história seria bastante até trágica se o Egito fosse um caso isolado, mas não é. A hepatite C se tornou uma epidemia global. Aproximadamente 170 milhões de pessoas, 3 por cento da população do mundo, sofrem da doença, quatro vezes mais que HIV/AIDS. A hepatite C não mata com a virulência de AIDS, mas, não obstante, também mata. Aproximadamente 15 por cento dos infetados possuem uma resposta imune para se livrar do vírus espontaneamente. Mas os restantes 85 por cento permanecem com a doença pelo resto das suas vidas, de forma crônica. Desses, um em cada cinco desenvolverão cirrose que pode conduzir a um câncer ou ao fracasso das funções do fígado. O que realmente preocupa os sistemas de saúde e o que é esperado de acontecer nos próximos 20 anos. Desde o momento da infecção, a hepatite C pode permanecer dormente na circulação sangüínea durante décadas, milhões das pessoas que já estão infetadas, mas não sabem disto, começarão a adoecer. Isso impulsionará o aumento de graves problemas hepáticos em todo o mundo, fazendo que órgãos para transplante sejam mais escassos que os disponíveis atualmente. A demanda por drogas mais eficazes e conseqüentemente mais caras para tratar a doença está aumentando rapidamente, deixando os países mais pobres, como o Egito, que possuem sistemas de saúde pública com poucos recursos financeiros, fora da possibilidade do uso destes medicamentos mais eficazes.

Os sistemas de saúde publica nem mesmo podem começar a calcular que recursos serão necessários, porque até mesmo os dados básicos sobre hepatite C são virtualmente inexistentes. Isso é, porque os cientistas identificaram a doença só 14 anos atrás. Até que foram desenvolvidos testes para identificar o vírus, a doença foi se disseminando silenciosamente durante décadas. Na Europa e nos Estados Unidos, os governos começaram a testar o sangue no inicio dos anos 90 freando a expansão do vírus desde então. Nações em desenvolvimento que respondem pela maioria de contaminados só recentemente passaram a controlar o vírus no sangue para transfusão. Só uma minoria, inclusive a Tailândia, África do Sul e Brasil, controlam efetivamente o sangue doado. Em outros, como a China e Índia, sangue e hemoderivados contaminados ainda podem estar infetando novos pacientes. Carlos Varaldo, diretor de uma organização que defende os pacientes no Rio de Janeiro, chama isto de um “uma bomba viral prestes a explodir.”

Em Egito, já explodiu . “Nós desejamos dar medicamento grátis a todos os pacientes,” diz Sa'eed Aoun, secretario para negócios preventivos do Ministério da Saúde do Egito. “Mas isto requer milhões de dólares por ano.” Já mais de 50 por cento dos gastos em saude no Egito são destinados para tratar os pacientes com doença no fígado, a maioria destes têm hepatite C. A maioria recebem vales com os quais conseguem medicamento grátis. Mas para conseguir os vales, um paciente de hepatite C, já enfraquecido pela doença, tem que ficar horas na fila do Ministério da Saúde. E o valor dos vales é pequeno, variando de mês a mês, outorgados pela persistência do paciente, amizades políticas e pelo o que o governo tem em seus cofres. Isto cria uma grande pressão nos médicos. “É muito difícil de decidir que medicamento prescrever para um paciente quando você sabe que ele não poderá adquirir o mesmo com o que o governo dispõe a cada mês,” diz o Dr. Mamdooh Diaa do Munufeyya que trabalha num hospital público, do norte do Cairo.

No Saara Africano, que tem um das taxas mais altas de infecção de hepatite C do mundo (variando de 1.3 a 6 por cento da população), a maioria dos pacientes simplesmente não foi diagnosticado. “Os doutores não estão procurando detectar a hepatite C,” diz David Heymann da Organização Mundial da Saúde (OMS). “Eles estão mais preocupados com a malária.” Nos médicos africanos, há pequena motivação para testar um vírus que eles não podem tratar por falta de recursos financeiros. A situação é igualmente medonha na Rússia onde a hepatite C quadruplicou na última década, devido principalmente ao excessivo uso de drogas. “Nós já estamos considerando isto uma epidemia, e muito pouco podemos fazer para parar com ela,” diz Sergey Kolesnikov, deputado no Parlamento de Rússia que está lutando para começar um programa nacional para combater todas as formas de hepatites. O governo, ele diz, importou só uma quantia limitada de medicamentos que distribui para os que podem pagar por eles. “Nós realmente estamos curando somente o rico,” diz. Até mesmo Brasil, com um dos melhores sistemas de saúde pública do mundo em desenvolvimento, está lutando. Mais de 5 milhões de pessoas podem estar infetadas, mas só uma minoria pequena foi diagnosticada. Como cada vez mais pacientes desenvolvem os sintomas, o governo está preocupado, simplesmente pode parar de distribuir os medicamentos, que por enquanto são entregues gratuitamente.

A expansão da hepatite C é particularmente preocupante em países com uma taxa alta de HIV/AIDS. Nos Estados Unidos, afeta entre um terço e a metade dos pacientes com HIV/AIDS. Esta co-infecção pode tornar a doença potencialmente mortal. Dois recentes estudos mostraram que a co-infecção com hepatite C conduz a uma progressão mais rápida do HIV para a AIDS. O contrário também é verdade. O comprometimento do sistema imune pelo HIV, prejudica a habilidade do corpo para lutar contra o vírus da hepatite C, progredindo mais rapidamente para a falência das funções do fígado. A co-infecção também complica o tratamento. “Hepatite C parece aumentar o risco da pessoa desenvolver toxicidade aos medicamentos de HIV,” diz o Dr. Stuart Ray, perito em co-infecção da Universidade Johns Hopkins de Baltimore, Maryland.

Países desenvolvidos estão igualmente preocupados. Ironicamente, o vírus em nações ricas têm uma relativa baixa taxa de infecção na sua população. A hepatite C ganhou manchetes recentemente nos Estados Unidos porque celebridades como a atriz Pámela Anderson ou o cantor country Naomi Judd assumiram que são portadores do vírus. “Eu não posso ir para um evento social sem conhecer alguém com hepatite C,” diz o epidemiologista Miriam Alter do Centro norte-americano para Controle de Doenças e Prevenção. Até final da década, é esperado que as mortes por hepatite C tripliquem nos Estados Unidos. Na Inglaterra, estão sendo diagnosticados 5.000 novos casos a cada ano, e o governo está correndo contra o tempo. “A epidemia está crescendo mais rapidamente que o número de pacientes que estamos tratando,” diz Nigel Hughes do Centro de Estudos do Fígado Britânico. Isso não é porque a doença está se disseminando mais rapidamente, mas porque números crescentes de portadores infetados como resultado do uso de drogas nos anos 70 estão apresentando sintomas e sendo diagnosticados. O padrão é semelhante nos Estados Unidos onde o uso de drogas era excessivo durante os anos 60. Por que o vírus da hepatite C apareceu tão recentemente, e se disseminou pelo mundo tão rapidamente? Devemos considerar algumas singularidades. Ao contrário do vírus da hepatite A (que se dissemina pelas fezes) ou do vírus da hepatite B (que passa facilmente pelo sexo), o vírus da hepatite C somente pode contaminar se o sangue de um portador entra nas veias de outra pessoa. É as oportunidades para tal tipo de contaminação ter acontecido durante os anos quarenta até os sessenta, quando seringas reutilizáveis eram comumente usadas em hospitais e também, era uma pratica comum usar sangue como medicamento eficaz para melhorar o paciente após uma operação. Antes de1960, os médicos observavam hepatite em pacientes que não possuíam qualquer um dos vírus de hepatite conhecidos. Faltando um nome melhor para a síndrome, eles chamaram isto “hepatite não-A, não-B”.

Até o momento, não há nenhum tratamento de cura 100 por cento eficaz. O melhor tratamento disponível é uma combinação do interferon, uma proteína que impulsiona uma maior resposta imune do organismo e o medicamento antiviral ribavirina, um primo distante do AZT. Prescritos em forma combinada, os de última geração conseguem eliminar o vírus em 50 a 55 por cento dos pacientes depois de seis meses a um ano de tratamento. Mas eles causam muitos efeitos colaterais, como perda de cabelo, cansaço e até problemas de coração, nos Estados Unidos, um paciente em cada sete abandona o tratamento. Bill Schwartz, 65, um tenente coronel aposentado, compara o tratamento que realizou por um ano, como o “ano que passou combatendo no Vietnã.” Ele não teve sucesso em eliminar o vírus.

Poucas pessoas em países em desenvolvimento podem dispor tratamento. Um tratamento completo com interferon chega aos U$20.000.- o preço de uma casa pequena no Brasil, ou o que o presidente de África do Sul ganha de salário por ano. Para pessoas como Nvansri Toommnon, 72 anos, esposa de um coronel aposentado da força aérea tailandesa não é um problema. Ela pode dispor de um quarto privado no Hospital de Bumrungrad de Bangkok. Mas até eles mesmo teriam problemas se os médicos tailandeses não dispusessem o tratamento gratuitamente para ela. “Se eu tivesse que pagar para ser tratado, seria quase impossível,” diz o Dr. Sirirung Songsivilai, professor da Universidade de Medicina de Mahidol . Também, porque o medicamento precisa ser tomado regularmente por um longo período de tempo e tem efeitos colaterais sérios, os países tem que ter um sistema de saúde pública com um bom sistema de controle dos medicamentos e assistência, em lugar entregar os medicamentos livremente. Por estas razões, a OMS aconselha países em desenvolvimento para realizar campanhas que evitem novas infecções, em vez tratar os contaminados atuais.

A melhor esperança dos portadores de hepatite C no Terceiro Mundo, diz o médico da OMS, Dr. Heymann, é encontrar uma vacina. Isso é uma busca constante, segundo Michael Houghton, vice-presidente da Chiron Corp. que pesquisa a hepatite C. Ele conduziu uma equipe de cientistas que identificou o vírus nos anos 80, é agora está dedicado a encontrar uma vacina. Mas ele diz que passarão pelo menos cinco anos antes de qualquer aprovação pelo governo norte-americano. Drogas melhores também estão em estudo. O mercado para tratamento da hepatite C está explodindo agora, e os fabricantes têm várias combinações novas em estudo. Pelo menos três companhias pesquisam inibidores de protease que bloqueiam uma enzima fundamental que permite o vírus se reproduzir. Schering-Plough, o líder atual em tratamento da hepatite C, estuda moléculas que poderiam ser combinadas com os inibidores de protease para criar um tipo de coquetel de múltiplos medicamentos, que já provaram ser efetivos contra o HIV/AIDS. “A comparação entre estas duas epidemias e necessária,” diz o Dr. Lawrence Deyton, do departamento de saúde da Associação de Veteranos de Guerra. “Nós encontramos hoje, na hepatite C, onde estávamos em HIV/AIDS 10 anos atrás, quando só utilizávamos uma ou duas drogas que eram muito tóxicas e não muito efetivas. Se o fígado de um paciente não estiver com um dano hepático preocupante, pode ser conveniente só acompanhar o paciente e esperar por melhores tratamentos.”

Enquanto isso, muitos estão recorrendo a medicamentos alternativos. Até mesmo nos Estados Unidos onde a maioria das pessoas pode dispor tratamento médico, entre 30 a 40 por cento dos pacientes com a hepatite C preferem medicamentos alternativos. Dr. Robert Gish, diretor médico do programa de transplante de fígado do Centro Médico de Califórnia em São Francisco, fala para os pacientes: “Eu tenho medicamentos que podem o curar, mas também, o podem deixar doente. Os naturalistas têm medicamentos que ajudarão com sua qualidade de vida, mas não o curaram da hepatite C.” Para países do terceiro mundo, os medicamentos a base de ervas têm a vantagem de estar disponíveis a preço reduzido. Uma das ervas mais populares é o cardo mariano, ou silymarina que foi usado para tratar doenças hepáticas avançadas durante mais de 2.000 anos. Na medicina chinesa, uma combinação de ervas junto com a raiz de alcaçuz tem o mesmo propósito. Cientistas já começaram a testar muitos destes medicamentos. Há pequenas evidências que eles consigam muito mais que um simples alivio nos sintomas, como diminuir a inflamação. Isso já é suficiente para Haj Hussein que se dirige para o bairro velho de Bab El Khalk, nos subúrbios do Cairo, para, toda semana comprar U$3.- de ervas. Com 62 anos, com a pele de cor amarelada e sombras escuras debaixo dos olhos, diz que as ervas fazem maravilhas. “Enquanto minhas enzimas estiverem normais, eu posso trabalhar. Eu posso viver!” Para a grande maioria dos portadores de hepatite C ao redor do mundo, tais remédios, baratos, trazem uma alternativa, até que os cientistas e os sistemas de saúde publica possam oferecer algo melhor.

Com Gameela Ismail em Cairo, Karen Macgregor em Johannesburg, Mac Margolis em Rio De Janeiro, Véspera Conant em Moscou, José Cochrane em Bangkok, Ann Binlot em Londres, Anne Underwood e John David Sparks em Nova Iorque, Karen Springen em Chicago e Paul Mooney em Beijing

Carlos Varaldo
www.hepato.com
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