04/01/2010
Como andam as pesquisas na hepatite C?
Tenho por principio escrever sobre pesquisas de novos medicamentos somente quando eles se encontram na fase 2 (ou superior) das fases das pesquisas e, desde que por minha percepção possuam possibilidades de sucesso nos ensaios clínicos em execução. Objetivo com isso não criar falsas expectativas nos infectados, pois nas fases iniciais existem centenas de idéias e pesquisas, mas é conhecido que de cada dez delas mais de nove estarão apresentando algum problema e serão descontinuadas.
Já quando na fase 2 as possibilidades de uma pesquisa vir a dar certo são maiores, entre 30 e 50%, o que coloca esses medicamentos como potenciais possibilidades para serem comercializadas em um período que pode ser entre 1 e 4 anos.
Realize um levantamento, realmente exaustivo devido à complexidade, dos cinco inibidores de protease, de seis inibidores de polimerase, de dois inibidores de replicação do vírus, de oito novos interferons, de três vacinas e de quatro medicamentos auxiliares.
No total são vinte e oito novos medicamentos que provavelmente virão se somar aos atuais interferons peguilados e ribavirina. Considero que estamos no limiar de uma revolução no tratamento da hepatite C. Em 1997 somente 12% dos tratados conseguiam a cura. Hoje quase 60% no total de tratados, sendo 50% dos infectados com o genótipo 1, entre 70 e 80% dos infectados com o genótipo 3 e até quase 90% dos infectados com o genótipo 2 que conseguem a cura se tratados com interferon peguilado e ribavirina.
Com a chegada de alguns dos medicamentos listados no artigo, posso afirmar sem medo de errar que nos próximos anos mais de 80% dos infectados com o genótipo 1 da hepatite C serão curados. Nos infectados com os genótipos 2 e 3 a possibilidade de cura será superior aos 90%.
Mas e muito importante destacar que o tratamento será realizado na metade do tempo atual na maioria dos pacientes. Pacientes que apresentem resposta rápida serão tratados entre 12 e 16 semanas se infectados com os genótipos 2 ou 3 e, em somente 24 ou 28 semanas se infectados com o genótipo 1.
Bom, está e a boa notícia para iniciar 2010 com esperança. Por hoje está sendo colocada está única noticia. Nos próximos dias estarei enviando as minhas "previsões" em relação às hepatites B e C.
INIBIDORES DA PROTEASE PARA TRATAMENTO DA HEPATITE C EM FASE 2 DAS PESQUISAS (ou em fases mais adiantadas)
1-
Boceprevir (SCH 503034) - Um inibidor de protease pesquisado pela empresa Schering-Plough (a qual após a incorporação pela Merck passa a se chamar MSD) que já se encontra na fase 3 do ensaio clínico (HCV SPRINT-2), devendo ser, em minha opinião pessoal, o primeiro a ser autorizado pelo FDA, o órgão que aprova os medicamentos nos Estados Unidos, já em 2010. A fase 3 da pesquisa inclui pacientes infectados com o genótipo 1 que serão tratados com o Boceprevir combinado com interferon peguilado e ribavirina durante 28 ou 36 semanas.
O Boceprevir, nos resultados apresentados na fase 2 do ensaio clínico logrou que 75% dos pacientes infectados com o genótipo 1 tratados durante 48 semanas conseguissem a resposta sustentada, considerada a cura da hepatite C.
2 -
TELAPREVIR - (VX950) - Á empresa Vertex já se encontra iniciando a fase 3 da pesquisa, denominada ADVANCE que inclui 100 instituições de diversos países. O ensaio clínico inclui 1.050 pacientes infectados com o genótipo 1 da hepatite C nunca antes tratados, os quais serão tratados durante 24 semanas com o Telaprevir combinado ao interferon peguilado e ribavirina. Dados preliminares apresentados no mês de novembro mostravam que com somente 24 semanas de tratamento, 69% dos infectados com o genótipo 1 conseguiam a cura da hepatite C. Um braço controle estará recebendo o tratamento tradicional, de 48 semanas com interferon peguilado e ribavirina, sem Telaprevir. O objetivo do estudo é fornecer dados suficientes para solicitar ao organismo que autoriza medicamentos nos Estados Unidos, o FDA, a licença de comercialização, o que poderá acontecer já em 2010.
Outro estudo, de nome REALIZE, está sendo realizado com 650 pacientes não respondedores e recidivantes. Os resultados preliminares são fantásticos, uma verdadeira esperança para esses pacientes em particular. Dados prévios apresentados em novembro mostram que 39% dos não respondedores a um tratamento prévio e 76% dos recidivantes conseguem a cura com a combinação de Telaprevir, interferon peguilado e ribavirina.
Na minha apreciação pessoal o Telaprevir deverá ser o segundo inibidor de protease a ser aprovado pelo FDA, logo após a aprovação do Boceprevir.
3 -
SCH900518 (Narlaprevir) - Em pesquisa pela empresa Schering-Plough (agora MSD), tratasse de um inibidor da protease - O estudo na fase 1 mostrou potente atividade antiviral. Neste momento se encontra em andamento a fase 2, combinado com interferon peguilado e ribavirina, se esperando para o mês de maio a publicação dos primeiros resultados. Outra pesquisa utiliza o SCH900518 (Narlaprevir) combinado com o Ritonavir (medicamento utilizado no tratamento do HIV) sendo observado que até 87% dos pacientes do estudo se encontravam indetectáveis na semana quatro do tratamento.
Na minha apreciação pessoal o Narlaprevir deverá ser o terceiro inibidor de protease a ser aprovado pelo FDA, provavelmente no inicio de 2011.
4 -
MK-7009 - Um inibidor da protease em pesquisa da Merck que apresenta poderosos efeitos antivirais sendo ainda bem tolerado sem eventos adversos graves ou interrupções. Dependendo da dosagem dados preliminares informam que até 82% dos pacientes incluídos no estudo conseguiram a resposta virológica rápida e, desses, 89% conseguiram estar negativos ao final do tratamento. Os dados de resposta sustentada são esperados para o mês de maio de 2010.
5 -
TMC435 - Um inibidor de protease em pesquisa pelas empresas Medivir / Tibotec em fase de ensaio clínico multicêntrico, duplo-cego os quais receberão o TMC435 conjuntamente com interferon peguilado e ribavirina durante 24 ou 48 semanas para verificar a resposta sustentada (cura da hepatite C) com a combinação testada.
INIBIDORES DA POLIMERASE PARA TRATAMENTO DA HEPATITE C EM FASE 2 DAS PESQUISAS (ou em fases mais adiantadas)
1 -
IDX184 - Tratasse de um inibidor da polimerase em pesquisa pela empresa Idenix muito bem tolerado em 41 pacientes que receberam a droga em monoterapia, conseguindo em somente três dias uma redução de 0,74 Log.
2 -
RG7227 (antigamente ITMN-191) - Um inibidor da polimerase em pesquisa pelas empresas InterMune / Roche em fases adiantadas das pesquisas. Esta sendo iniciado um estudo multicêntrico com 300 pacientes que estarão sendo tratados com interferon peguilado, ribavirina e o RG7227 objetivando estudar a segurança, tolerabilidade e efetividade.
3 -
ANA598 - Um inibidor da polimerase em desenvolvimento pela empresa Anadys Pharmaceuticals o qual se encontra em fases aceleradas da pesquisa por ter recebido autorização de fast-track pelo organismo de controle de medicamentos dos Estados Unidos, o FDA. Acabam de ser divulgados dados preliminares mostrando que 56% dos pacientes infectados com o genótipo 1 que receberam o ANA598 junto ao interferon peguilado e ribavirina se encontravam indetectáveis na semana quatro do tratamento. Lembro que no tratamento tradicional com interferon peguilado e ribavirina somente 20% conseguem estar indetectáveis na semana quatro do tratamento.
4 -
BI 207127 - Um inibidor da polimerase em pesquisa pela Boerhinger Ingelheim que demonstrou potente atividade antiviral quando empregado em monoterapia, reduzindo em somente 24 horas a carga viral em 4 LOG na metade dos pacientes incluídos nos estudos. Atualmente está sendo realizado um ensaio clínico na combinação com o interferon peguilado, sendo esperada a apresentação dos resultados para o mês de maio de 2010.
5 -
GS 9191 - Um inibidor da polimerase em pesquisa da empresa Gilead com o qual está em andamento um ensaio clínico em combinação com interferon peguilado e ribavirina. Os resultados deverão ser publicados durante 2010.
6 -
VCH-759 - Um inibidor da polimerase em pesquisa pela empresa Vertex - Encontrasse em andamento a fase 2 da pesquisa, um estudo multicêntrico, duplo-cego-placebo, controlado, para avaliar a atividade antiviral e sua segurança.
INIBIDORES DA REPLICAÇÃO DO VÍRUS DA HEPATITE C EM FASE 2 DAS PESQUISAS (ou em fases mais adiantadas)
1 -
BMS-790052 - Um inibidor da porção do vírus denominada NS5A em pesquisa da empresa BMS. Encontrasse em andamento um ensaio clínico em fase 2 com pacientes infectados com o genótipo 1 da hepatite C não respondedores a um tratamento anterior e, também, com pacientes nunca antes tratados.
2 -
ITX5061 iTherx - Uma interessante abordagem desta pesquisa e inibir a entrada do vírus nas células do fígado. Teve inicio a fase 2 da pesquisa, incluindo 40 pacientes para testar o ITX5061, avaliando a redução da carga viral, a tolerabilidade e segurança.
PESQUISAS DE NOVOS INTERFERONS NA FASE 2 DAS PESQUISAS (ou em fases mais adiantadas)
1 -
Albuferon (ZALBIN) - Um novo interferon desenvolvido pela empresa Human Genome Sciences, não peguilado, mas de longa duração no organismo, o qual apresenta a facilidade de ser aplicado a cada duas semanas. A resposta terapêutica e similar a do interferon peguilado. Este novo interferon já apresentou solicitação de registro ao FDA, organismo que controla os medicamentos nos Estados unidos e certamente estará autorizada a sua comercialização já em 2010. Será mais uma opção no arsenal terapêutico para o tratamento da hepatite C.
2 -
Interferon de Consenso (Infergen) - Ensaios clínicos realizados pela empresa Three Rivers Pharma que se encontram na fase 3 estão avaliando a segurança e eficácia de uma aplicação diária do Infergen, em combinação com a ribavirina para o tratamento de pacientes não respondedores a um tratamento com interferon peguilado.
3 -
IL-29 (Type III Interferon) - Um interferon de longa duração atualmente pesquisado em forma conjunta pela empresas ZymoGenetics e BMS (Bristol-Myers Squibb) se encontra em ensaios clínicos com não respondedores. Foi dado inicio a fase 2 do estudo EMERGE em pacientes infectados com o genótipo 1 e nunca antes tratados, empregando o IL-29 (também conhecido como PEG-Interferon lambda) combinado com a ribavirina.
4 -
Oral Interferon - Um interferon oral em pesquisa da empresa Amarillo Biosciences que se encontra realizando um ensaio clínico em Taiwan com 165 pacientes infectados com o genótipo 1. O objetivo do estudo e confirmar se o interferon oral, empregado em conjunto com o interferon peguilado e a ribavirina pode reduzir o número de recidivas após o final do tratamento. Os resultados deste estudo são esperados para o final de 2010.
5 -
BLX-883 (Locteron) - Um interferon de longa duração no organismo para ser aplicado a cada duas semanas em pesquisa das empresas Biolex Therapeutics e OctoPlus. Um pequeno estudo mostrou que possui menos efeitos colaterais que o interferon peguilado e aparentemente a mesma resposta terapêutica. Um ensaio clínico, denominado SELECT-2 já teve inicio, objetivando empregar o Locteron combinado com ribavirina para comparar a resposta terapêutica com pacientes tratados com interferon peguilado e ribavirina. Resultados preliminares deverão ser apresentados em maio de 2010.
6 -
Omega Interferon - Uma inovadora forma de aplicação de interferon, de aplicação continua mediante uma bomba que e implantada junto à cintura do paciente. Um ensaio clínico com 102 pacientes obteve 36% de resposta sustentada, considerada a cura da doença. Um novo ensaio clínico, com doses maiores está sendo preparado.
7 -
IFN-Alpha-2b XL - Em pesquisa na fase 2 da empresa Flamel Technologies, denominada de ANRS HC 23 COAT-IFN (COnfirmation of Anti-viral activity and Tolerance of Interferon alpha-2b XL) inclui 84 pacientes infectados com o genótipo 1 nunca antes tratados e pacientes não respondedores. Os resultados da fase 1 com o IFN-Alpha-2b XL mostraram ser um medicamento bem tolerado e com menores efeitos colaterais que o interferon peguilado.
8 -
Interferon Peguilado Fio Cruz - No Brasil a Fio Cruz obteve a peguilação em laboratório, uma excelente notícia por se tratar de um laboratório oficial. Existe interesse do departamento de Ciência e Tecnologia do Ministério da Saúde em realizar um ensaio clínico para se constatar a sua eficácia e segurança e, caso isso seja comprovado se estudar a possibilidade de instalar os equipamentos necessários para a fabricação.
A realização das três fases do ensaio clínico para se ter total certeza da segurança do produto deverá levar no mínimo de três e até cinco anos, antes de poder colocar o produto no mercado. Existe um rumor que o departamento de Ciência e Tecnologia do Ministério da Saúde estaria por abrir uma consulta pública para mudar a legislação de autorização e registro dos medicamentos biológicos, acelerando os prazos das fases das pesquisas, tal qual existe com os medicamentos genéricos, uma espécie de bio-equivalencia.
Em relação ao interferon a questão é muito mais complicada, pois não se trata de um medicamento biológico simples, pelo contrario, ele e um imunobiologico que atua alterando a resposta imunomoduladora do organismo, daí que são conhecidas mais de sessenta doenças ou condições direta ou indiretamente ligadas a hepatite C e seu tratamento com o interferon que podem ser desencadeadas ou exacerbadas com a utilização do interferon. Querer acelerar prazos, encurtar as fases dos ensaios clínicos com o interferon poderá resultar em problemas gravíssimos para os pacientes que passem a utilizar o medicamento.
O Brasil já teve sérios problemas quando autorizou a utilização do interferon convencional sem exigir a realização de ensaios clínicos controlados. A importação de interferons convencionais de Cuba, Argentina e Coréia. O resultado foi triste, pois poucos conseguiram a cura com esses medicamentos e, hoje devem ser retratados com interferon peguilado.
Quando se compara as taxas de cura no Brasil na utilização desses interferons, que na época chamei de interferons "Tabajaras" com o logrado em países que somente autorizavam a utilização dos medicamentos originais (Intron-A e Roferon) vemos que somente conseguimos curar a metade do logrado nos outros países. Hoje o retratamento no Brasil de pacientes tratados com o interferon convencional consegue curar quase 200% a mais que na Europa ou nos Estados Unidos, demonstrando enfaticamente que os tais interferons eram ineficazes.
É por motivos assim que não se podem "queimar" etapas e aprovar apressadamente medicamentos não comprovadamente seguros e eficazes.
PESQUISAS DE VACINAS NA FASE 2 DAS PESQUISAS (ou em fases mais adiantadas)
1 -
GI-5005 (Tarmogen) - A empresa Globe Immune está pesquisando uma vacina terapêutica, isto é, uma vacina para tratamento da hepatite C (não para prevenção) objetivando estimular o sistema imune do organismo para combater o vírus. No mês de novembro foram apresentados os resultados preliminares da fase 2 da pesquisa, na qual foram tratados 120 pacientes com a vacina Tamogem combinada com o interferon peguilado e ribavirina. Ao final do tratamento 74% dos pacientes se encontravam indetectáveis. Os dados finais, para se conhecer a resposta sustentada deverão ser apresentados no mês de maio de 2010.
2 -
Civacir - NABI - Uma vacina combinada com imunoglobulina que objetiva evitar que pacientes transplantados de fígado passem a ter o novo fígado atacado pelo vírus da hepatite C. O estudo, que recebeu em 2006 autorização de fast track pelo FDA dos Estados Unidos e desenvolvido pela Clínica Mayo em conjunto com a empresa Biotest AG. Desde 2007 que não são apresentados novos dados sobre o andamento das pesquisas.
3 -
IC41 - Intercell - Uma vacina terapêutica que objetiva aumentar a resposta imunológica aumentado a células T no organismo. Dados preliminares da fase 2 das pesquisas apresentados no mês de novembro não foram muito alentadores, pois não foram observadas reduções significativas na carga viral. Somente em altas cargas virais foi conseguida alguma redução.
PESQUISAS DE MEDICAMENTOS AUXILIARES NA FASE 2 (ou superior)
1 -
GS-9450 - Um inibidor da caspase em desenvolvimento pela empresa Gilead - A fase 2 da pesquisa se encontra em andamento em pacientes infectados com hepatite C que apresentam esteatoses (gordura no fígado).
2 -
CTS-1027 - Uma droga para inibir a inflamação do fígado em pesquisa da empresa Conatus - Atualmente está sendo realizado um ensaio clínico com 70 pacientes infectados com hepatite C os quais estão recebendo o CTS-1027 em monoterapia ou em combinação com a ribavirina.
3 -
Alínea (nitazoxanide) - O Nitazoxanide, conhecido comercialmente como
Alinia ou
Annita e um medicamento utilizado para combater parasitas intestinais em crianças. Quando testado no tratamento da hepatite C em pacientes infectados com o genótipo 4, combinado com o interferon e ribavirina conseguiram dobrar em 100% a resposta terapêutica.
Estudos com o genótipo 1 estão em andamento. Dados preliminares mostram que e logrado um aumento na possibilidade de cura do genótipo 1 em pacientes não respondedores e com cirrose, mas estranhamente isso somente está sendo observado em pacientes brancos, sem nenhum benefício em pacientes de pele negra. Os resultados finais divulgando a resposta sustentada são esperados para o mês de maio de 2010.
4 -
Nexavar (sorafenib) - Uma pesquisa está sendo realizada desde o mês de junho de 2009 pelas empresas Bayer e Ônix em 700 pacientes com câncer no fígado objetivando descobrir se a combinação de Nexavar e Tarceva (medicamento da Roche) consegue prolongar a sobrevivência dos pacientes. Resultados preliminares deverão ser apresentados durante 2010.
Carlos Varaldo
Grupo Otimismo
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A Organização Mundial da Saúde estima que 1,5 milhão de pessoas morrem a cada ano por culpa das hepatites B ou C. Uma morte a cada 20 segundos!
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