25/08/2009
Existe alguma economia utilizando o interferon convencional no tratamento dos genótipos 2 e 3 da hepatite C?
O Brasil, na contramão dos consensos internacionais, insiste em continuar utilizando o interferon convencional no tratamento dos genótipos 2 e 3 da hepatite C, achando que com isso está conseguindo economizar dinheiro.
Está comprovado que a resposta terapêutica do interferon peguilado e superior ao do interferon convencional, motivo pelo qual o mundo praticamente parou de utilizar este último, até o tradicional Roferon deixou de ser fabricado pela falta quase absoluta de mercado.
O tratamento dos genótipos 2 e 3 e realizado em 24 semanas. Quando empregado o interferon convencional o genótipo 3 alcança uma resposta terapêutica perto dos 70% (até um pouco inferior dependendo de o interferon convencional ser de primeira marca ou um similar sem estudos de ensaios clínicos controlados). O interferon peguilado no genótipo 3 consegue resposta terapêutica superior aos 70%, chegando em alguns estudos publicados a quase 80%.
No tratamento do genótipo 2 a diferença e ainda maior. No genótipo 2 o interferon convencional responde igual que no genótipo 3, mas o interferon peguilado consegue uma resposta terapêutica próxima dos 90%.
Não somente a resposta terapêutica e maior beneficiando um maior número de pacientes que conseguem a cura da hepatite C, mas também devemos considerar a qualidade de vida do pacientes em tratamento já que a comodidade de uma aplicação semanal em vez de três por semana conjuntamente a menos efeitos colaterais no dia após a aplicação são fatores que irão influenciar na vida durante as 24 semanas de tratamento, um fator imponderável, mas que socialmente deve ser levado em consideração.
Voltando ao lado da economia vemos que ela praticamente não existe por ser mínima. De cada 100 pacientes tratados com interferon convencional por 24 semanas, considerando de forma otimista que 70 deles consigam ficar curados, 30 deverão ser retratados com o interferon peguilado, retratamento este que deve ser realizado em 48 semanas conforme os consensos e a própria Portaria 34/2007 do ministério da saúde.
Se os 100 pacientes tivessem recebido logo o tratamento com interferon peguilado teriam sido consumidas 2.400 ampolas de interferon peguilado e 50.400 cápsulas de ribavirina de 250 mg. Entre 80% e 90% dos pacientes estariam sendo curados.
Quando utilizado primeiro o tratamento com interferon convencional e a seguir 30% dos pacientes são retratados com interferon peguilado o consumo de medicamentos será de 7.200 ampolas de interferon convencional, de 1.440 ampolas de interferon peguilado e de 80.640 cápsulas de ribavirina de 250 mg.. O mesmo percentual de pacientes será curado, entre 80 e 90%.
Ainda, serão necessárias mais 60% de exames e consultas a mais quando se utiliza primeiro o tratamento com interferon convencional em vez de partir logo para o peguilado.
Considerando então os dados acima podemos deduzir que a economia de 960 ampolas de interferon peguilado não compensa o gasto a mais com 7.200 ampolas de interferon convencional, 30.240 cápsulas de ribavirina, 120 PCR/HCV/RNA, 180 hemogramas, incalculáveis exames de transaminases, e outros e, ainda mais de 300 consultas com os especialistas para retratas os 30% que perderam o tratamento por ter utilizado o interferon convencional.
Deve o governo considerar se ao obrigar os infectados com os genótipos 2 ou 3 estão realmente conseguindo alguma economia ou se isso está levando a um gasto maior com medicamentos e serviços de saúde. Muitas vezes uma decisão precipitada, sem ampla discussão com diversos setores da sociedade, pode levar a resultados errados.
Para os trinta por cento dos pacientes que são obrigados a ter que suportar mais 48 semanas de tratamento estou dando meus pêsames pelo sofrimento e pela perda de tempo ocasionada, mas acredito que se impetrada uma ação para que todos sejam tratados logo com o interferon peguilado, explicando detalhadamente os argumentos colocados neste artigo, os Juízes estarão concedendo via Ordem Judicial o beneficio de realizar logo o tratamento de 24 semanas com o interferon peguilado.
Quando a imposição de uma medida que não foi discutida prejudica os pacientes, o caminho, lamentavelmente, volta a ser o da Justiça!
Carlos Varaldo
Grupo Otimismo
Carlos Varaldo e o Grupo Otimismo declaram não possuir conflitos de interesse com eventuais patrocinadores das diversas atividades.
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