A relação entre o vírus da hepatite C e diabetes: Melhoria na resistência à insulina após a erradicação do vírus da hepatite C

289

Voltar

No Brasil, estima-se que 7% da população, ou 14 milhões de pessoas, têm diabetes, e 0,7% da população, ou 1,4 milhões de pessoas, têm o vírus da hepatite C.

Pesquisas e estudos epidemiológicos demonstram que existe um “link epidemiológico” entre a hepatite C e o diabetes. Existe no mundo uma epidemia de obesidade e diabetes, os efeitos metabólicos associados a hepatite C e sua erradicação são importantes a serem considerados.

A infecção pela hepatite C está associada a uma maior prevalência de diabetes mellitus tipo 2 (DM2). Em 2000, Mehta e colaboradores (Mehta SH, Brancati FL, Sulkowski MS, et al. Prevalence of type 2 diabetes mellitus among persons with hepatitis C virus infection in the United States. Ann Intern Med 2000;133:592‐599.) usaram dados transversais da Pesquisa Nacional de Saúde e Nutrição de aproximadamente 10.000 pacientes de 1988 a 1994 e descobriram que adultos com 40 anos ou mais com infecção pela hepatite C tinham quase quatro vezes mais chances de ter diabetes concomitante que aqueles sem infecção com hepatite C.

Em um estudo de controle de seguimento de mais de 1.000 pacientes, Mehta e colaboradores  ( Mehta SH, Brancati FL, Strathdee SA, et al. Hepatitis C virus infection and incident type 2 diabetes. Hepatology 2003;38:50‐56.) demonstraram que em pacientes com fatores de risco para síndrome metabólica, a presença de infecção crônica por hepatite C aumentou o risco de desenvolvimento de diabetes tipo 2 em 11 vezes em um acompanhamento de 9 anos.

Múltiplos estudos menores em todo o mundo mostraram uma maior prevalência de diabetes tipo 2 em pacientes com infecção concomitante por hepatite C.

Na França, Grimbert e colaboradores ( Grimbert S, Valensi P, Levy‐Marchal C, et al. High prevalence of diabetes mellitus in patients with chronic hepatitis C. A case‐control study. Gastroenterol Clin Biol 1996;20:544‐548.)  investigaram 152 pacientes com hepatite C e 152 controles hospitalizados durante o mesmo período com o vírus da hepatite B (n = 51) ou doenças hepáticas induzidas pelo álcool (n = 101) pareados por idade, sexo e presença de cirrose, e descobriu que o diabetes tipo 2 estava presente em 24% dos pacientes com hepatite C e 9% no grupo controle.

Na Itália, Antonelli e colegas ( Antonelli A, Ferri C, Fallahi P, et al. Hepatitis C virus infection: evidence for an association with type 2 diabetes. Diabetes Care 2005;28:2548‐2550.) estudaram 564 pacientes não-cirróticos infectados pela hepatite C controlados com pacientes não infectados pelo vírus da hepatite B não-cirróticos, e demonstraram uma taxa de prevalência aumentada de diabetes tipo 2 de 12% versus 4,9% nos controles.

Esses estudos e muitos outros mostram uma associação epidemiológica entre a hepatite C e o diabetes tipo 2.

Mecanismos moleculares fornecem explicações para as quais a infecção pela hepatite C pode aumentar o risco de desenvolvimento de diabetes tipo 2 ou piorar o controle glicêmico em pacientes com diabetes tipo 2 estabelecido.

Estudos anteriores examinaram a melhoria da resistência à insulina após o tratamento da hepatite C. No estudo HALT-C (Hepatitis C Antiviral Long‐Term Treatment Against Cirrhosis) de 96 pacientes sem diagnóstico de diabetes tipo 2, a resistência à insulina melhorou 20 semanas após o tratamento bem-sucedido com terapias com interferon e ribavirina. ( Delgado‐Borrego A, Jordan SH, Negre B, et al. Reduction of insulin resistance with effective clearance of hepatitis C infection: results from the HALT‐C trial. Clin Gastroenterol Hepatol2010;8:458‐462.).

A cura da hepatite C também reduz o risco de desenvolvimento de glicemia em jejum. Simó e colaboradores ( Simó R, Lecube A, Genesca J, et al. Sustained virological response correlates with reduction in the incidence of glucose abnormalities in patients with chronic hepatitis C virus infection. Diabetes Care 2006;29:2462‐2466.) estudaram 234 pacientes com infecção crônica pela hepatite C após o tratamento. Durante um período médio de seguimento de 5,7 anos, 14,6% dos pacientes curados da hepatite C e 34,1% dos não respondedores apresentaram anormalidades glicêmicas.

Em pacientes sem diabetes tipo 2 antes do tratamento da hepatite C, o desenvolvimento de diabetes tipo 2 foi reduzido em dois terços após a cura da hepatite C em um estudo de Arase e colaboradores ( Arase Y, Suzuki F, Suzuki Y, et al. Sustained virological response reduces incidence of onset of type 2 diabetes in chronic hepatitis C. Hepatology 2009;49:739‐744.) de uma coorte de 2.842 pacientes tratados para hepatite C acompanhados por um período médio de 6,4 anos.

Recentemente, em um estudo de tratamento da hepatite C com os medicamentos de ação direta (livres de interferon) em pacientes com diabetes, a cura da hepatite C levou à melhora nas porcentagens de hemoglobina A1c (HbA1c) e no uso geral de insulina. Para pacientes com diabetes com uma média de HbA1c inicial maior de 7,2% antes do tratamento da hepatite C, houve quase uma melhora de 1% para a média de HbA1c no ano após o tratamento. No geral, os pacientes com diabetes também tiveram menos prescrições de insulina no ano após a cura da hepatite C. ( Hum J, Jou JH, Green PK, et al. Improvement in glycemic control of type 2 diabetes after successful treatment of hepatitis C virus. Diabetes Care 2017;40(9):1173‐1180.) Esses achados sugerem uma melhora no controle glicêmico após o tratamento bem-sucedido da hepatite C com os novos antivirais diretos.

Concluem os autores que em pacientes com hepatite C, há uma maior prevalência de diabetes tipo 2, o que provavelmente é uma consequência da alteração da sensibilidade à insulina pela própria partícula viral do vírus C e por citocinas inflamatórias. Múltiplos estudos mostraram agora uma melhora na resistência à insulina e diminuição no desenvolvimento de diabetes tipo 2 após a cura da hepatite C. Dada a alta taxa de resposta viral com medicamentos antivirais diretos, é importante considerar os benefícios extra-hepáticos do tratamento.

MEU COMENTÁRIO

É necessário e de fundamental importância que as recomendações de tratamento do diabetes passem a incluir a testagem da hepatite C em todas as pessoas com diabetes tipo 2.

Toda pessoa com diabetes deve realizar o teste da hepatite C e se positiva realizar imediatamente o tratamento, hoje em dia um tratamento simples e fácil com o qual em somente 12 semanas, tomando um o dos comprimidos ao dia, praticamente sem efeitos colaterais, até 98% resultam curados da hepatite C e estarão melhorando o diabetes

Fonte: The link between hepatitis C virus and diabetes mellitus: Improvement in insulin resistance after eradication of hepatitis C virus – Justine Hum M.D., Janice H. Jou M.D., M.H.S. – AASLD – American Association for the Study of Liver Diseases – CLINICAL LIVER DISEASE, VOL 11, NO 3, MARCH 2018

Carlos Varaldo
www.hepato.com
hepato@hepato.com

IMPORTANTE: Os artigos se encontram em ordem cronológica. O avanço do conhecimento nas pesquisas pode tornar obsoleta qualquer colocação em poucos meses. Encontrando colocações diversas que possam ser consideradas controversas sempre considerar a informação mais atual, com data de publicação mais recente.

Carlos Varaldo e o Grupo Otimismo declaram não possuir conflitos de interesse com eventuais patrocinadores das diversas atividades.

Aviso legal: As informações deste texto são meramente informativas e não podem ser consideradas nem utilizadas como indicação médica.
É permitida a utilização das informações contidas nesta mensagem desde que citada a fonte:
WWW.HEPATO.COM

O Grupo Otimismo é afiliado da AIGA – ALIANÇA INDEPENDENTE DOS GRUPOS DE APOIO

Compartilhar